A morte de Raul Vilar foi muito lamentada. Todos os jornais
consagraram longos artigos ao grande escultor. Fazendo o seu elogio,
escreveram-lhe a biografia, catalogaram-lhe as obras — entre as quais avulta
esse admirável baixo-relevo «Amor» — e concordaram unanimemente em que o seu
prematuro falecimento havia sido uma grave perda para a arte nacional. Depois,
os anos decorreram. Hoje, poucos se lembrarão já do pobre Raul. É por isso
mesmo que me decido a falar dele. Para o fazer, ninguém mais competente do que
eu: fui o seu maior amigo, o seu único amigo. Que as minhas intenções não sejam
desvirtuadas: este escrito tem por fim simplesmente pôr em evidência todos os
elementos que possam servir de base para o estudo duma singularíssima
psicologia; que possam tornar compreensível a incompreensível tragédia de uma
alma, explicar um inexplicável suicídio. Devo ainda declarar que estas páginas
visam também a desfazer as estúpidas fantasias que se propalaram sobre os
motivos que teriam conduzido o jovem artista ao seu ato de desespero. Neste
assunto, obscuro em extremo, farei o possível por ser claro. Ignoro se o
conseguirei e — sem mais preâmbulos — vou começar.
quinta-feira, 9 de abril de 2020
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