Em 1536 começava a funcionar, em
Évora, onde a corte residia, a Inquisição. O seu objetivo principal era
defender a fé e a Igreja. A bula papal da fundação explicitava a natureza dos
crimes sob a sua alçada. Apelava-se a todos que denunciassem qualquer pessoa
suspeita de ter aderido às crenças luteranas, observado cerimónias e costumes
judaicos ou islâmicos, negado a existência da vida eterna, acreditado na
transmigração das almas até ao dia do Juízo, contestado a virgindade de Nossa
Senhora ou que Cristo fosse o Messias prometido no Antigo Testamento, praticado
a bigamia, bruxaria ou feitiçaria, possuído livros para celebrar sabats
noturnos ou outros defesos pela Igreja, incluindo bíblias escritas em línguas
vernáculas. Iniciava-se uma perseguição que levou milhares de vítimas, homens e
mulheres, pelas suas ideias e comportamentos a serem presas, acusadas e, no
limite, mortas nas fogueiras por condenação do Santo Ofício. Nascia, deste
modo, no coração do Renascimento, a Inquisição, que marcou de forma vincada a
História de Portugal e do seu império durante 285 anos. A sua infuência
continua a sentir-se ainda hoje, em certas dimensões da vida institucional e
até nos costumes e modos de ser e pensar. Numa pesquisa rigorosa e baseada em
consulta exaustiva de arquivos e documentação, Giuseppe Marcocci e José Pedro
Paiva apresentam a primeira história da Inquisição portuguesa, desde a sua
fundação à extinção, em 1821. Uma obra única e original que permite perceber a
história, a vida institucional e judiciária do Tribunal da Fé, a sua evolução,
com os seus períodos de crise e de maior perseguição. Sem nunca esquecer as
histórias dos homens que formavam este órgão e as suas vítimas -
cristãos-novos, feiticeiros, bruxas e outros hereges - que questionavam os
dogmas ou a ordem social instituída e, por isso, sofreram duras perseguições e
torturas, tendo muitos comparecido em autos da fé celebrados em praças
públicas.
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