Neste clássico da literatura contemporânea, Primo Levi dá um
testemunho pungente de uma tragédia que afetou milhões de pessoas. Considerado
o mais belo livro já escrito sobre a existência massacrada dos judeus
deportados, É isto um homem? Não é, no entanto, um relato carregado de ódio e
vingança. Desprovidos de saúde, os judeus nos campos de extermínio dificilmente
poderiam ser identificados com os homens que eram antes da tragédia. Muito
menos seus algozes sem rosto, senhores de escravos, mas sem vontade própria,
num campo de morte onde ela, afinal, era o menor dos males.
* * *
Primo Levi é conhecido em todo o mundo por ser o autor de
alguns dos mais importantes relatos autobiográficos sobre os campos de
concentração de Auschwitz, em livros como É isto um homem?, A trégua e Afogados
e sobreviventes.
Em A chave estrela (1978), Levi cria um personagem que, em
vez de estar submetido aos trabalhos forçados de um campo de extermínio, viaja
pelo mundo construindo imensas instalações. Faussone, o protagonista que narra
suas aventuras de operário especializado em montagens, transforma suas
experiências cotidianas em verdadeiras epopeias do trabalho: seu engenho, sua
habilidade e sua força fazem lembrar o herói de Homero ou Hércules em seus doze
trabalhos.
Escrito em um estilo que se aproxima da oralidade, com
digressões, idas e vindas, as histórias de Faussone também conferem uma
dimensão concreta a um mundo cada vez mais dominado pela virtualidade da vida
contemporânea: o trabalho com a matéria bruta.
O embate ancestral entre o homem e a natureza, trazido para
os dias de hoje, é o ponto central deste romance, que restitui com uma extrema
habilidade narrativa as maravilhas que os homens são capazes de fazer, mesmo em
tempos de destruição.
* * *
Depois de se tornar mundialmente famoso com os livros É isto
um homem? (1947) e A trégua (1963), nos quais denunciava as atrocidades que
viveu nos campos de concentração nazistas, Primo Levi surpreendeu seus leitores
ao publicar, em 1966, o volume de contos intitulado Histórias naturais. Sob o
pseudônimo de Damiano Malabaila, o escritor italiano passava da literatura de
testemunho para o campo da ficção científica e do conto fantástico, rompendo o
pacto autobiográfico dos dois primeiros livros.
Em 1971, Levi lançou – dessa vez sem recorrer ao pseudônimo
– nova coletânea de contos, que desenvolviam alguns temas do volume anterior.
Vício de forma veio confirmá-lo como um dos principais escritores da segunda
metade do século XX, além de reforçar o aspecto mais propriamente ficcional de
sua obra.
Finalmente, em 1981, Levi publicou o seu terceiro livro de
contos, Lilith, dessa vez entremeando narrativas fantásticas e relatos
autobiográficos, como se quisesse reiterar que as duas coisas andavam juntas e
se complementavam. De fato, o sobrevivente de Auschwitz usa a imaginação para
sondar as perspectivas deste mundo: a possibilidade de um colapso ambiental, a
mercantilização total da vida, a mistura entre corpo e máquina, a emergência da
realidade virtual, a indistinção entre humano e não-humano.







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