Neste seu último romance, datado do início dos anos 60,
Aldous Huxley volta a falar de uma sociedade idealizada, como fizera em Admirável
Mundo Novo , escrito três décadas antes. Em vez de situar seus personagens em
um futuro sombrio, dominado pelo consumo e por sofisticados mecanismos de
controle social, o autor elegeu uma fictícia ilha como palco de uma civilização
que persegue serenamente a felicidade. Lá a autopia da existência plena é
possível, e esse é o grande tema da discussão proposta nesta obra de Huxley.
* * *
Uma sociedade inteiramente organizada segundo princípios
científicos, na qual a mera menção das antiquadas palavras “pai” e “mãe”
produzem repugnância. Um mundo de pessoas programadas em laboratório, e
adestradas para cumprir seu papel numa sociedade de castas biologicamente
definidas já no nascimento. Um mundo no qual a literatura, a música e o cinema
só têm a função de solidificar o espírito de conformismo. Um universo que louva
o avanço da técnica, a linha de montagem, a produção em série, a uniformidade,
e que idolatra Henry Ford. Essa é a visão desenvolvida no clarividente romance
distópico de Aldous Huxley, que ao lado de 1984, de George Orwell, constituem
os exemplos mais marcantes, na esfera literária, da tematização de estados
autoritários. Se o livro de Orwell criticava acidamente os governos totalitários
de esquerda e de direita, o terror do stalinismo e a barbárie do nazifascismo,
em Huxley o objeto é a sociedade capitalista, industrial e tecnológica, em que
a racionalidade se tornou a nova religião, em que a ciência é o novo ídolo, um
mundo no qual a experiência do sujeito não parece mais fazer nenhum sentido, e
no qual a obra de Shakespeare adquire tons revolucionários. Entretanto, o
moderno clássico de Huxley não é um mero exercício de futurismo ou de ficção
científica. Trata-se, o que é mais grave, de um olhar agudo acerca das
potencialidades autoritárias do próprio mundo em que vivemos. Como um alerta de
que, ao não se preservarem os valores da civilização humanista, o que nos
aguarda não é o róseo paraíso iluminista da liberdade, mas os grilhões de um
admirável mundo novo.
* * *
Mestre da "narrativa de ideias", Aldous Huxley
retratou, com o rigor ferino do humor britânico, a comicidade involuntária da
tragédia de seus personagens, atordoados na agitação desesperada dos
"loucos anos 1920". Nesse período, Huxley publicou cinco livros de
contos e novelas, seus primeiros quatro romances, além de vários volumes de
ensaios, críticas e relatos de viagem. Três décadas e outra guerra depois,
tendo trocada a velha Inglaterra pelos Estados Unidos e abandonado a narrativa
curta para se dedicar aos experimentos filosóficos e aos romances, foi
convencido a reunir seus melhores contos em um único volume. O resultado da
escolha gerou o livro que o leitor tem em mãos, publicado pela primeira vez em
1857.
Os vinte e um contos valem por si, mas também reconhecemos
neles a semente daquilo que, nos romances posteriores, iria caracterizar o
típico narrador huxleyano: a crítica à afetação intelectual da elite inglesa e
a exposição do tédio e do vazio de uma vida desprovida de sentido prático em
tempos difíceis. A grandeza de Huxley, nesses breves contos, está na denúncia
ao mesmo tempo trágica e irônica da pequenez do esnobismo elitista e vulgar de
seus contemporâneos, e na firme convicção de que a cultura deve sempre criticar
a si mesma, se não quiser ser reduzida a mera conversa de salão.
* * *
Este Contraponto surpreenderá o leitor que espera outra
ficção científica, ou um mundo tecnologicamente distante do nosso. Entretanto,
confirmará vários dos elementos que estão em Admirável, e que foram tão caros a
Aldous Huxley: o desencontro entre as pessoas, a frieza nas relações, a
dificuldade de expressão, e o mundo avassalador que incita os homens, e os
afastam. Afora o cenário árido dos sentimentos, sempre a mesma esperança de
Huxley, um tanto melancólica, de que o as pessoas, finalmente, se encontrem.
Publicado em 1930 e presente em várias listas dos Cem melhores romances do
século XX, o livro é um retrato da sociedade decadente, que passa a
forçadamente rever seus valores quando a aristocracia e o dinheiro “antigo” já
não mais sustentam a imagem de uma sociedade ideal. Contraponto é um mosaico de
personagens, agrupados em núcleos, que vão de uma aristocracia decadente a
ricos emergentes na sociedade inglesa do início do século XX. E, neste cenário,
abre-se todo espaço para que Huxley, a partir das relações entre as personagens,
teça como que um grande ensaio sobre os valores morais e éticos, a ciência, a
religião, a arte. Cada um desses elementos é personificado por uma ou mais
personagens, e como numa sinfonia, é possível ir discernindo cada uma das
pequenas melodias que a compõem. É dessa maneira que Contraponto torna-se um
delicioso, ainda que melancólico, retrato de nossa época – sim, ainda de nossa
época. Melancólico porque há a guerra, a hipocrisia, a mesquinharia e o
onipresente dinheiro regendo tudo. Mas delicioso porque a figura da mulher,
exemplarmente pintada em Lucy, surge inteligente, independente e emancipada. E
o grotesco da sociedade marca o tempo da sinfonia e, se é triste, não deixa de
ser um primor da criação de Huxley.
* * *
Este "Folhas inúteis", de 1925, é apenas o
terceiro romance de Huxley e já então o consagrava como um dos principais nomes
da literatura inglesa moderna. Espécie de marco em sua bibliografia, um
prenúncio dos temas sobre os quais se debruçaria em obras posteriores, há um
traço de espírito próprio do gênio, que dedica suspeitas sentimentais, dores do
coração e os inumeráveis conflitos da mente diante de uma sociedade que a
achata, a uma classe de escrita sensível, de junção de proeza técnica com
paixão humana.
Um fino retrato de um grupo que se encontra em um palacete
italiano para discutir cultura, sociedade, o seu tempo. Ou antes, para lerem-se
um ao outro nas entrelinhas de cada convite, pergunta ou comentário carregados
de uma segunda intenção que salta à vista, tal qual o coração deixa falar
nessas horas. Ou as máscaras sociais que são pouco a pouco desveladas no
contato com o outro, ora na figura da imponente sra. Aldwinkle, ora no tato
atrapalhado de cada um dos personagens que com ela interage.
Uma marca de Huxley que podemos ver com clareza neste
"Folhas inúteis" é que o foco narrativo se desloca com facilidade por
entre os espaços e por entre os personagens, como se parecesse perdido,
buscando uma mão que o guie. Há, visivelmente, uma frustração perene no ar. Uma
ânsia de recuperar um passado renascentista mas que não se resolve, por mais
que o grupo ali se esforce para disfarçar isso.
* * *
Nesta coleção de 26 ensaios, lançada em 1931, Huxley reflete
sobre a expressão do inexprimível na música, sobre a vulgaridade nas artes,
sobre as mudanças sexuais e de pensamento, sobre as ambiguidades do progresso,
sobre a busca eterna por novos prazeres. O texto “Os sermões dos gatos”, por
exemplo, observa o comportamento felino como um espelho da natureza humana. Já
“A indústria da beleza” garante que, num futuro não muito distante, todos serão
jovens para sempre.
É o auge de uma visão humanista, satírica e premonitória.
Fascinantes e atemporais, os ensaios de Música na noite são indispensáveis para
o entendimento das transformações que o século XX nos legou.
* * *
Sátira e pesadelo profético, escrito sob a forma de um
roteiro cinematográfico imaginário, O Macaco e a Essência se antecipa ao tempo
e vai buscar o mundo no início do século XXII. O panorama é desolador: uma
América destruída há mais de cem anos por uma guerra atômica e bacteriológica;
o ser humano possuído pela estranha consciência que o obriga a destruir a
natureza e a si próprio.
* * *
Ao lado desse episódio verídico, os preconceitos e os dogmas
em que mergulhava a França da época constituem os elementos a partir dos quais
Huxley realiza uma profunda investigação sobra a natureza da vida espiritual –
analisando principalmente a possessão como uma realidade que tem lugar dentro e
fora da psique humana.
* * *
O título deste romance deriva de um verso de John Milton
(1608-1674) - um poeta cego - que na tragédia Samson Agonistes descreve a
personagem bíblica Sansão como "sem olhos em Gaza, no moinho com os
escravos". Huxley escolhe esse verso como epígrafe e título de seu romance
numa alusão ao tema da obra, que é um retrato sem contemplações da espécie humana,
aterrador e fascinante pela vaidade e pela alienação transparentes em sua
conduta e valores. O cenário eleito por Huxley para este contundente estudo da
cegueira do homo sapiens é a alta sociedade inglesa, entre o início do século
XX e a década de 1930, onde se mesclam aristocratas decadentes, novos-ricos,
intelectuais pretensiosos em meio a arrivistas e boêmios. Contra esse pano de
fundo movimenta-se a personagem central, Anthony Beavis, um privilegiado a quem
as circunstâncias permitiram gozar de autonomia de pensamento, afluência
econômica e ausência de laços afetivos. Sem qualquer esforço moral, Beavis
consegue atingir a independência de julgamento de um filósofo e a capacidade de
renúncia de um santo. Contudo, essa é uma liberdade fácil, que Huxley reprova.
Sua intenção é mostrar que não é de forma alguma a verdadeira liberdade, e que
a indiferença filosófica e o desprendimento de seu herói nada têm a ver com os
do legítimo pensador ou do homem de bem.
Também o Cisne Morre
O contato impactante com a América o levou a escrever este
livro. Publicado pela primeira vez em 1939, o romance narra o encontro de
Jeremy Pordage, scholar britânico um tanto arrogante e inseguro, e Jo Stoyte,
milionário tão poderoso quanto superficial, que o contrata para analisar uns
documentos antigos — Stoyte teria sido inspirado, assim como o Cidadão Kane de
Orson Welles, em William Randolph Hearst, magnata das comunicações conhecido
por todos que estavam de alguma maneira ligados ao mercado cinematográfico.
No castelo kitsch de Stoyte, com provas de mau gosto e
ostentação, Pordage conhece ainda a senhorita Virginia Maunciple, a jovem
amante de Jo; Sigmund Obispo, cientista cuja pesquisa sobre a longevidade tem
sido financiada por Stoyte; e Pete Boone, assistente de Obispo, cujas
convicções revolucionárias seriam abaladas pelas ideias pacifistas de William
Propter. Durante a narrativa, as tramas sobre as pesquisas de Pordage e Obispo,
intercaladas pelos discursos e reflexões de Propter, aproximam-se até
culminarem num final surpreendente.







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