Não é apenas mais um livro sobre política, mas uma metáfora
do mundo que estamos inexoravelmente construindo. Invasão de privacidade,
avanços tecnológicos que propiciam o controle total dos indivíduos, destruição
ou manipulação da memória histórica dos povos e guerras para assegurar a paz já
fazem parte da realidade. Se essa realidade caminhar para o cenário antevisto
em 1984, o indivíduo não terá qualquer defesa. Aí reside a importância de se
ler Orwell, porque seus escritos são capazes de alertar as gerações presentes e
futuras do perigo que correm e de mobilizá-las pela humanização do mundo.
* * *
Verdadeiro clássico moderno, concebido por um dos mais
influentes escritores do século 20, "A Revolução dos Bichos" é uma
fábula sobre o poder. Narra a insurreição dos animais de uma granja contra seus
donos. Progressivamente, porém, a revolução degenera numa tirania ainda mais
opressiva que a dos humanos
Escrita em plena Segunda Guerra Mundial e publicada em 1945
depois de ter sido rejeitada por várias editoras, essa pequena narrativa causou
desconforto ao satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa época em que os
soviéticos ainda eram aliados do Ocidente na luta contra o eixo nazifascista.
De fato, são claras as referências: o despótico Napoleão
seria Stálin, o banido Bola-de-Neve seria Trotsky, e os eventos políticos -
expurgos, instituição de um estado policial, deturpação tendenciosa da História
- mimetizam os que estavam em curso na União Soviética.
Com o acirramento da Guerra Fria, as mesmas razões que
causaram constrangimento na época de sua publicação levaram A revolução dos
bichos a ser amplamente usada pelo Ocidente nas décadas seguintes como arma
ideológica contra o comunismo. O próprio Orwell, adepto do socialismo e inimigo
de qualquer forma de manipulação política, sentiu-se incomodado com a
utilização de sua fábula como panfleto.
* * *
George Orwell infiltra-se, como a água da chuva e o frio,
por entre as brechas das casas degradadas, na vida das comunidades de mineiros
do Lancanshire, descendo com estes homens infaustos e desesperançados às minas
e às catacumbas da existência humana. Orwell assume assim a sua origem nobre,
não por ser essa a sua condição social e a origem da sua educação, mas porque
conseguiu, sob a negregura da pele alheia, encontrar-se a si mesmo, o que
afinal também se verifica a seguir, quando aborda a embaraçosa questão da
elevada taxa de desemprego e as conse-quentes miserandas condições de vida. A
partir daí, e já na segunda parte do livro, como uma consequência natural da
experiência anterior, uma luz depois de um longo e escuro corredor subterrâneo,
Orwell avança com as suas ideias, ou ideais, sobre o socialismo, sobre a forma
crítica como este poderia ser aplicado e subsidiar a construção de outro mundo,
longe do futuro previsto em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro.
* * *
Para George Orwell, nada substituía a experiência direta da
vida. E foi com base na vivência pessoal e na observação crítica do mundo que
ele escreveu ensaios, artigos e crônicas ao longo de toda a vida. Alguns dos
mais representativos desses textos estão reunidos em Como morrem os pobres e outros
ensaios.
Na primeira seção do livro, por exemplo, estão os relatos e
reflexões de Orwell sobre sua vivência pessoal como sem-teto, colhedor
boia-fria de lúpulo, presidiário e paciente de um hospital público. Em outra
parte enfeixam-se seus vigorosos artigos sobre o uso da linguagem verbal no
romance, na poesia, na propaganda política e no jornalismo.
A gama de interesses do escritor é inesgotável. Com a mesma
verve e conhecimento de causa, ele fala sobre temas graves, como a hipocrisia
intelectual, ao lado de assuntos mais leves e aparentemente até fúteis, como os
trajes da elite britânica e o gosto do cidadão inglês por crimes
sensacionalistas.
De todos os tópicos, sejam grandes ou pequenos, Orwell
extrai revelações sobre a estrutura da sociedade, as mudanças nos costumes, as
transformações profundas operadas na Inglaterra e no mundo na primeira metade
do século XX.
* * *
John Flory não esconde sua impaciência para com a vida de
madeireiro na Birmânia (atual Mianmar) dos anos 1920, quando o remoto país
asiático era uma colônia britânica. No clube de brancos racistas e bêbados que
freqüenta, Flory é considerado um bolchevique por ser amigo dos “negros”, isto
é, os nativos do lugar.
“Expressar-se livremente é impensável”, diz Flory, sobre a
miserável existência na colônia. “Você é livre para virar um bêbado, ocioso,
covarde, maledicente, fornicador; mas não é livre para pensar por si mesmo.”
* * *
Esta edição, além de apresentar, em nova tradução, ‘Homage
to Catalonia’ e ‘Looking back on the Spanish War’, também em nova tradução,
quer ampliar a percepção que o público brasileiro possa ter de Orwell, da
Guerra Civil Espanhola e de seus relatos. Para isso, foram selecionados outros
25 textos de ‘Orwell in Spain’, que possibilitam ao leitor penetrar no
intrincado labirinto de questões em torno da guerra e de suas variadas
interpretações. A partir da correspondência do escritor, de testemunhos que
escreveu quando solicitado por periódicos e de sua incansável atividade de
crítica política ou da historiografia sobre a Guerra Civil, vamos ainda
encontrar indicações de que o autor alterou em parte suas avaliações e
orientações político-ideológicas. O livro abre com ‘Homenagem à Catalunha’,
seguido de ‘Recordando a Guerra Civil Espanhola’. Depois, os 25 textos
selecionados são apresentados cronologicamente, cobrindo um período mesmo
anterior à redação de homenagem à Catalunha e que se estende até meados de
1940. A tradução foi feita a partir da edição inglesa que reúne todos os textos
de Orwell sobre a Espanha e a guerra devidamente anotados para o esclarecimento
de passagens ou dados específicos. A leitura desses textos permitirá ao leitor
acompanhar o percurso de auto-esclarecimento de Orwell acerca da extensão e
expansão do fenômeno do totalitarismo, bem como do problema relativo à
complexidade da verdade histórica, sistematicamente fabricada e manipulada, em
particular pela grande imprensa.
* * *
Dorothy Hare, a filha do reverendo, tem todas as razões do
mundo para se rebelar contra a repressão paterna e social. Mas, porque nunca
ousaria fazê-lo, devotada que é ao pai, uma providencial amnésia lhe mostra o
sabor amargo da liberdade.
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Os brasileiros conhecem bem o George Orwell de 1984 e A
revolução dos bichos, duas fábulas políticas que marcaram época pelas críticas
ao totalitarismo em imagens fortes. Mas a faceta de jornalista e ensaísta,
apresentada agora em Dentro da baleia, merece igual atenção. Sua prosa de
não-ficção tem a mesma capacidade de prender o leitor e, de tão cristalina e
flexível, tornou-se um estilo que as boas escolas de jornalismo estudam no
mundo todo. Seus temas continuam vivos por obra e graça de sua transparência
corajosa e poder descritivo. Mesmo as reflexões políticas circunstanciais falam
ao leitor de hoje.A organização do livro, a cargo do jornalista Daniel Piza,
procura abarcar a variedade de assuntos que interessava a Orwell. Na primeira
parte, Orwell escreve sobre a carreira de escritor e lembra o período em que
trabalhou como vendedor num sebo de livros. Ele também discute a arte da
resenha e cria a categoria dos "bons livros ruins", aqueles que
seguimos lendo com empolgação mesmo cientes dos defeitos. Na segunda parte,
temos o Orwell memorialista e analista político. Textos como "Um
enforcamento" e "O abate de um elefante" são clássicos do
jornalismo literário. Em "Reflexões sobre Gandhi", Orwell causa
controvérsia ao criticar a vaidade do pacifista mais famoso do século XX. Na
terceira e última parte, literatura e política se misturam ainda mais, e ele
examina autores como H.G. Wells, Tolstoi, Swift e Mark Twain à luz de suas
opções políticas.A pergunta que mais inquietou Orwell foi justamente a relação
entre o escritor e a política, discutida no ensaio que dá título ao livro. Para
ele, o escritor não deve ter visão partidária da realidade, mas também não pode
fugir da responsabilidade de imaginar uma sociedade melhor. Como supunha que o
mundo caminhava para o totalitarismo (a maioria de seus ensaios foi escrita nos
anos 30 e 40), lamentou a morte do romance. Sua própria ficção, porém, foi
prova do contrário. Em harmonia com seus ensaios, deu um grito de resistência
que ainda ecoa.







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