À primeira vista, não se nota grande movimento no número 7
da Rue de Grenelle: o endereço é chique, e os moradores são gente rica e
tradicional. Para ingressar no prédio e poder conhecer seus personagens, com
suas manias e segredos, será preciso infiltrar um agente ou uma agente ou - por
que não? - duas agentes. É justamente o que faz Muriel Barbery em A elegância
do ouriço, seu segundo romance. Para começar, dando voz a Renée, que parece ser
a zeladora por excelência: baixota, ranzinza e sempre pronta a bater a porta na
cara de alguém. Na verdade, uma observadora refinada, ora terna, ora ácida, e
um personagem complexo, que apaga as pegadas para que ninguém adivinhe o que
guarda na toca: um amor extremado às letras e às artes, sem as nódoas de classe
e de esnobismo que mancham o perfil dos seus muitos patrões. E ainda há Paloma,
a caçula da família Josse. O pai é um figurão da política, a mãe dondoca tem
doutorado em letras, a irmã mais velha jura que é filósofa, mas Paloma conhece
bem demais o verso e o reverso da vida familiar para engolir a história
oficial. Tanto que se impõe um desafio terrível: ou descobre algum sentido para
a vida, ou comete suicídio (seguido de incêndio) no seu aniversário de treze
anos. Enquanto a data não chega, mantém duas séries de anotações pessoais e
filosóficas: os Pensamentos profundos e o Diário do movimento do mundo,
crônicas de suas experiências íntimas e também da vida no prédio. As vozes da
garota e da zeladora, primeiro paralelas, depois entrelaçadas, vão desenhando
uma espiral em que se misturam argumentos filosóficos, instantes de revelação
estética, birras de classe e maldades adolescentes, poemas orientais e filmes
blockbuster. As duas filósofas, Renée e Paloma, estão inteiramente entregues a
esse ímpeto satírico e devastador, quando chega de mudança o bem-humorado
Kakuro Ozu, senhor japonês com nome de cineasta que, sem alarde, saberá
salvá-las tanto da mediocridade geral como dos próprios espinhos.
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